Poemas
Palavras que ficam
Um lugar pra poesia — a que dói, a que brinca com a língua, e a que só quer ser lida devagar.
[poesia. luto. 2025.]
Elegia
I
Veio feito turista, de mala feita
instaurou-se no hotel de minha infância
e depois partiu.
Sonhei que ressuscitavas,
Acordei sem Cristo —
Com o peito em pranto
querendo chorar a garganta.
Eu não sei em que porta do futuro
ou do destino
poderia sentir-te de novo
ninar os meus sonhos
e me imaginar adulto.
Estou agora aqui, adulto,
te imaginando criança.
Choravas no leito
lágrimas de infância
que eu não tive coragem de secar.
Uma névoa gerada pelo som dos aparelhos
encobriam nossas palavras.
Eu tentei dizer que tudo ficaria bem.
E desde aquela tarde eu sempre estive mal -
Porque não há bem em um filho sem mãe.
II
Pensavas, deitada no divã da morte
Nas dolorosas trilhas deste destino:
Estar só é estar mal e entregue à sorte
da natureza, do acaso, algo divino.
Conversavas com Deus, negociando dias
Não querias vingança ou males do ser.
Pedia alívio das dores e agonias
Ou - pelo menos - ver seu filho crescer.
Turbulentas as horas antes do fim
Incomodava. E aumentava a dor,
E a dúvida: Lírio sem jardim?
Não perfuma e não sorri. Não é flor.
III
Fizeste de pedra minhas memórias
e dói lembrar. Chorei, anos depois.
Quando entendi que viver pode ser triste.
Sim, eu já fui feliz, e sem ti.
Deitei em outros colos e
procurei em mim outros sonhos pra chamar de mãe.
Rompeste, de novo, a corda umbilical
e foi a surra da tua ausência que me fez chorar.
Doeu. Mas é vida se não doer?
Morreste assim, na dor.
É tanto tempo depois
eu continuo aqui,
Procurando em mim, remédios para chamar de mãe.
24 de março de 2025
[poesia. tempo. 2024.]
sim, o mundo há de acabar.
e todas as pressas virarão vagareza.
as tempestades irão garoar.
o luto empalidecerá.
quando arrancarem as páginas,
o peito vai deixar de doer.
a garganta deixará de gritar.
o jardim murchará.
até lá, andemos mais devagar.
aproveitemos a chuva.
desfrutemos das lágrimas.
até lá, escrevamos mais um poema,
esquentemos mais um chá,
plantemos mais uma flor.
2024
[poesia. ausência. 2023.]
a esta pessoa que se foi
você daria tudo para vê-la novamente
nem que seja pra não dizer nada -
mesmo que agora quisesse dizer tudo.
fica dentro do peito um rasgo
e a gente quer por que quer costurar.
essa pessoa que se foi -
se mal conhecíamos
agora ficamos loucos para conhecer melhor.
mas se muito bem a conhecíamos
agora talvez fosse bom desconhecer -
porque, afinal, ficamos.
e sem saber muito bem o que isto significa.
quem vai, leva muito
e lamentamos que talvez esta que se foi
não tenha feito tudo
[como se Deus não detivesse o tempo.]
quem vai, leva tudo
leva as respostas de todas as perguntas
e deixa no lugar o silêncio absoluto do luto.
no sepultamento
o caixão desce como se enterrasse
um corpo ainda com vida
engavetando amores, sonhos,
e tudo mais que faz a vida valer a pena.
e se a morte de um indecente já machuca
a de alguém querido estraçalha
derruba rochas e enche mares
é maremoto e tsunami, é fim do mundo.
e quando a última rosa toca a grama
junto com a última lágrima
a gente segue como se o rasgo já houvesse costura
fingindo estar prontos pra vida -
inundados de angústia
porque ainda não aprendemos a lidar
com a malvadeza que é o cessar da vida.
porque nunca mais a maçaneta abrirá,
nos surpreendendo com o rosto desta que se foi.
quem vai, leva tudo
e um pedaço de quem fica.
Quando você merece o mundo
é quando ele não te serve -
fica justo e o tempo te leva
pra merecer outra coisa.
2023
[poesia. fragmentos.]
Nós desconfiguramos o mundo
2020
Eu sempre preferi os dois pássaros voando.
Eu acredito no futuro das coisas
Por isso deposito minha esperança na posdestinação.
Eu tenho posconceitos.
Sempre me posocupo com as coisas.
Eu possuponho tudo.
Fiz arte - beijei, sorri, cantei.
Faz parte - brinquei perdi, amei.
Dece pci onei:
Relações, cachorros, sonetos.
As folhas não sabem mais
O que é outono
O que é Haicai -
Nós desconfiguramos o mundo.
CAIXA ALTA
Negrito. Sublinhado. poesia.
Cada um tem sua maneira de destacar a vida.